sábado, 24 de maio de 2008

Encontro e reencontro de um jovem-velho com um velho-jovem.

"Acreditai, aquele menino, um dia, envelheceu de repente."

22 de maio

O verso acima é único que ainda me recordo do primeiro poema que devorei. Nesse primeiro contato com a poesia pensei {sem vacilo}: “É isso. Eu quero isso”. Passou-se 5 lerdos anos e ainda não me fiz poeta por desesperança {apesar de pesquisar sempre} e por excesso de destalento.

Lembrei-me disso porque morreu agora a pouco meu poeta preferido. Morreu aqui perto da minha casa e não o conheci e não o reconheci quando saía do hospital. Somente pela internet é que dei conta da minha covardia imensa diante da morte, mas-entretanto-contudo-todavia, ele, felizmente, será enterrado no cemitério que sempre visito.

H. Dobal.

Sei que ser candidato a poeta nessa terra que ele tanto cantou não é para amadores: Uma geração tem, por karma, que superar a outra ou do contrário ela nunca existirá e ele fora até 3 horas e 48 minutos atrás o nosso maior nome poético vivo. Quem aqui o conhece, o reconhece?
Não conheço muitos que digam um sim seguro.

Ponto final. Já chega. Fim. The end. Xeque mate. Nada resta a dizer. Nada. Eis aí 3 poemas desse mostro das palavras.

O fugitivo

João Ramos
Não esperou o júri
Apalavrado por absorvê-lo.

Preferiu partir
Numa fuga segura.
Pensou, falou:
Deus é grande
Mas o mato é maior.


Fazenda

São trinta cabeças
De gado cabrum.
Criação miúda
Sem qualquer ciência.
Somente o chiqueiro
Defesa noturna
Que bem cedo aberto
O dia lhes dá.

Rústicas a vida
De qualquer maneira
Sabem extrair.
Mas vem da morte
sua serventia
o couro e a carne para o homem
mais pobre do que elas

A justiça

A máquina morosa,
mas implacável,
tomou as terras
de João Vieira,
pobre diabo,
que só tinha por si
o direito.

23 de maio

O corpo do poeta passou direto num carro de bombeiro. Os carros que o seguiam abrigavam outros gênios como Cineas Santos, amigo íntimo do corpo que passava.
Chovia. Recordei a idéia da frase de Machado de Assis no Memórias Póstumas de Brás Cubas: - "Vejam, Até a natureza chora sua partida".

Pensei, logo depois, já que só havia carros de amigos e parentes o seguindo, que ser poeta numa nação cheia de desleitores deve de ser uma merda... Mas a fé é grande e como fezes se faz estrume e do estrume nasce a rosa do jardim daqui de casa, faremos o seguinte: Esqueceremos alto-ajuda e Paulo coelho que nada servem e passaremos a ler e valorizar os grandes dessa terra.
E, enfim, o fim.

{em off:[a esperança é a última que morre: antes, ela faz o favor de torturar e matar o resto.]}

O Sabido

Godofredo Boavista
Tinha todos os cursos
Da escola da vida.
Sabia tudo. Dizia:
- Mais sabido do que eu
É desonesto.

Um comentário:

Cacau disse...

Concordo com tudo que você disse. E é muito triste perder o maior poeta da nossa terra. ¬¬'